quinta-feira, 21 de junho de 2012

Procura-se


Como chegou ao café com pernas tão bambas, não sabia explicar. Olhou para os pés, mas não encontrou as formigas que sentia devorá-los. Talvez fosse só o bafo da manhã. Talvez a fome: havia saído de casa só com angústia no estômago. Pediu uma média e um pão na chapa. O pão ela jogou na lixeira da calçada. Na média conseguiu dar dois goles. A agonia quis sair em formato de vômito. Uma gota de suor gelado despencou da testa para o colo. Tentou, mas o bom dia para o balconista não saiu. Uma família dormia na calçada. E suas crianças, onde estavam? Olhou novamente para o atendente que lhe entregara o café, mas não o reconheceu. Por um instante viu seus filhos deitados na rua e seu amor sendo jogado no lixo não reciclável. A angústia começou a gritar sufocada dentro do estômago. Tentava subir até a garganta, mas um gole no café frio deixado em cima do balcão a fez descer. Viu as portas abertas de um ônibus e entrou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário