sexta-feira, 24 de maio de 2013

Silêncio, menina


Você, criança, que viu teu papai e tua mamãe serem mortos a tiros – pá!, pá! – aprenda, criança, aprenda, as pessoas gostam de silêncio, e de espaço, e de respeito, e de direitos. Todos os direitos inventados ao longo dos séculos para uma só pessoa. Porque todo ser humano é detentor de direitos. E todo ser humano quer os seus direitos. Entendeu, criança? Na tua nova casa, não corra, não chore, não grite, não brinque com eletrônicos ruidosos, não ria muito alto. Shiiiii..., shiiiii... – aprenda esse som-regra.  E se você não viu papai e mamãe serem mortos, mas só ouviu, tire os “pá” e “pá” da tua cabecinha. Tire, mas não atire, se conseguir.

terça-feira, 21 de maio de 2013

A dor e a esperança


Ela chorou porque um menino dorme na rua. Porque um menino dorme na rua coberto por sacos plásticos. Porque um menino dorme na rua coberto por sacos plásticos e abraçado a um bicho de pelúcia. Ela chorou porque o menino dorme como os filhos dela. Porque o menino sonha como os filhos dela. Porque o menino deseja o que desejam os filhos dela. E o que podem as lágrimas dessa mulher? Transformar a calçada em cama? A rua em quarto? Os sacos plásticos em cobertor? As lágrimas da mulher não podem nada. Mas... mas, ah, ainda existe uma mulher que chora porque um menino dorme na rua.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Só...


O primeiro e o segundo foram muito desejados. O terceiro foi um acidente, mas só ela e o marido sabem. O quarto talvez não exista, mas isso só ela sabe. Não pense que ela é uma mulher divorciada e desesperada por estar grávida de um homem com quem não quer dividir responsabilidades. Está casada com o pai dos seus filhos há quinze anos. Ele não chega em casa com flores, eles não dançam na sala ao som de “She”, não rodopiam sorridentes em montanhas suíças, mas ainda unem suas mãos na hora de dormir. Se um viaja, o outro se encolhe na incompletude da cama e não dorme bem. E ainda se beijam quando dizem “bom dia”. Também não pense que é outro homem o pai desse filho. Nesses quinze anos ela soube resistir às tentações que, é claro, cutucaram os dois. Diz para as amigas que é só uma questão de escolha.

Tem quase quarenta anos, o caçula tem cinco e ela finalmente conseguiu fazer uma lipo no abdômen e nas coxas e colocar 350 ml de silicone nos seios. Toma pílula todos os dias na hora em que o alarme do celular toca (tem pavor de um dispositivo dentro do seu útero), mas o ginecologista explicou que só a pílula não conseguiu conter a fertilidade dela. Ela não sorriu com o médico. Ele indicou um colega que faz o trabalho que ele não faz, mas só até a décima segunda semana. Ela ainda tem quinze dias. Sente-se decidida até olhar para o número do telefone da clínica. Sobre o dinheiro que vai sair da conta para essa operação, ela pode dizer que foi um empréstimo para a melhor amiga. Acaba quase sempre virando uma doação mesmo.

Se o marido souber – da gravidez (da intenção, jamais), vai dizer que Deus está lhes mandando outro presente, que darão um jeito nas economias e que as noites mal dormidas são só uma fase. Podem contratar uma enfermeira e as outras crianças podem até ajudar, a mais velha já completou dez anos. Talvez deixem de viajar um mês por ano, mas quinze dias já proporcionam memórias alegres e boas fotos. E daí se o inglês, o espanhol, o balé, a natação, o judô, o futebol e kumon forem reduzidos a duas ou três atividades? E como dizer que uma casa que acomoda cinco não acomoda seis?

O que ele não vai entender é que ela não quer ser novamente controlada por hormônios inimigos durante nove meses – nem por nove dias. Não quer correr o risco de mais uma depressão pós-parto – se de três, uma, por que não de quatro, duas? Não quer o peso de uma barriga que deixará seus músculos flácidos e sem posição para dormir. Os peitos incham e vazam e ela nunca achou isso romântico. E agora com esse silicone nos seios, o que acontecerá com o leite? Ela não perguntou porque se achava fora de risco. E não quer mais um ser humano para escravizá-la e fazê-la sentir pavor da morte deles (não pode nem pensar nisso, ela nem permitiria que “morte deles” fosse escrito). A loja novamente sob os cuidados das funcionárias distraídas e ela tão dividida quanto um quebra-cabeça de cinco mil peças desmontado. Com os olhos inchados e doloridos, chutou a parede do quarto quando pensou no bebê conforto, na decoração do quarto, na cadeirinha para o carro, no colchão anti-refluxo, no cadeirão num canto da sala, nas visitas mensais ao pediatra, nas fraldas, na esterilização das chupetas e das mamadeiras, nas madrugadas chorosas, nas febres, nas cólicas, nas papinhas batidas, depois peneiradas, depois amassadas e por fim cuspidas. Já tem em casa três crianças que a abraçam no fim do dia e dizem “eu te amo” e “estava com saudades”. Sim, a quarta poderia ser mais uma carinha linda com duas mãozinhas apontadas para o seu colo, às quais ela não iria resistir. Mas no fim dessas linhas, eu e você sabemos: a escolha é dela.

domingo, 19 de maio de 2013

Domingo


Barrigas quentes de macarrão. Mentes dormentes de vinho. Louça lavada em cima da pia. Na sala, os homens esperam um gol aparecer na tela da televisão: um grita, um morde os dedos da mão e um cochila. Na cozinha, uma mulher esquenta água no fogão enquanto duas escolhem o sabor do chá: camomila, baunilha e mel. Um bolo de fubá sai do forno. No quarto, as crianças se vestem de super-heróis e desferem chutes umas nas outras. Depois se abraçam. Até faltarem poucas horas para a segunda-feira e a TV ser desligada, para a semana não começar contaminada. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

O sapo


O sapo é feio e gosmento e asqueroso. E gelado como o fim da vida. Um bicho para me lembrar de que a morte está sempre à espreita, com olhos esbugalhados, pronta para engolir – assim, vupt - uma mosca que voa pretensa e imbecilmente pelo mundo.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Seis horas


Seis da tarde. E o dia ainda não havia nascido dentro dela. É perigosa a vida, menina, tão perigosa. Ninguém te ensinou isso, não? Aprender a fritar um ovo não te salvará. Camisas passadas e engomadas? Ra-ra-ra. Escrever um texto, operar um coração, calcular juros, aumentar as vendas? O que você precisa aprender, menina, o que você devia ter aprendido, é a vomitar. Todos os dias. Às seis da tarde.

sábado, 11 de maio de 2013

Casamento III


Todas as madrugadas Guilherme ataca a geladeira, silencioso. Vivian só percebe por causa da pia na manhã seguinte.

Na segunda, ele deixou um pote com restos de sorvete e cobertura de chocolate. Na terça, restos de banana amassada com farinha doce. Na quarta, chocolate derretido com caroços de mexerica e cascas de banana. Na quinta, bolachas doces esfareladas com chantili. Na sexta, mais sorvete com leite em pó e cobertura de caramelo.

Na manhã do sábado, Vivian olhou para a pia. Em vez de chorar, tomou um café sem açúcar e comeu meio pão com manteiga. Guilherme dormia.

Enquanto ela desgrudava os restos da semana e deixava a louça limpa, viu o esmalte vermelho de dois dias sumir das unhas. Guilherme apareceu na porta:

Por que você está fazendo isso? Deixa aí que depois eu lavo...

Guilherme..., o rosto de Vivian se avermelhou. Guilherme...vai se ferrar, Guilherme, eu te odeio, Guilherme, você é um porco egoísta nojento, Guilherme...escuta aqui, Guilherme...olha aqui...

Vivian, eu não entendo porque mereço tanto desrespeito.

terça-feira, 7 de maio de 2013

A tecelã


Acendeu o abajur. Quatro e quinze. A madrugada barulhenta lá fora. Um carro arrancava sob os protestos de uma mulher histérica. Acendeu a luz do abajur, deu três passos até a janela, não sem antes pisar num taco solto e sujar a sola dos pés com o pó que brotava dos vãos. Tossiu, afastou o tecido amarelo com flores vermelhas que fazia a vez de cortina e abriu a janela. A mulher histérica devia ter seguido seu rumo: é o que nos resta, não? Um homem saltou de um carro, tropeçou e entrou no prédio. Pelo vulto, diria ser o vizinho do 42. Fechou a janela, a noite estava fria e ninguém mais brigava lá embaixo. Sentou na cama e ficou olhando para o teto. Branco. Quando criança sonhava em ter no quarto aquelas estrelas fluorescentes coladas no teto. E se colasse algumas agora? Tomou um gole de água, rolou por cima da cama e se olhou no espelho da penteadeira. Precisava dormir, sumir com as olheiras, ter tempo para os sonhos. Mexeu nos frascos de perfume, borrifou uma colônia no ar, abriu a revista com fofocas dos famosos e olhou por vários minutos para a foto do Rodrigo Lombardi na praia. Quem sabe a imagem grudaria na retina e sonharia com ele. Ela e ele correndo na areia, lado a lado. Ou brincando de jogar água do mar que ela não conhecia um no outro. Sorriu. Abriu o guarda-roupa, sua mais recente aquisição em doze prestações. Uma das portas não abria inteira por conta do pé da cama. Logo conseguiria um quarto maior, um apartamento maior, uma vida maior. E uma cortina para combinar com a colcha quadriculada de rosa e branco. Um sonho, dizia sua mãe, a gente tece que nem crochê. Que roupa usaria se encontrasse o Rodrigo Lombardi? Sem dúvida alguma o tubinho preto, presente da patroa. Prenderia os cabelos, só para ele ter o prazer de soltá-los. E compraria um sapato novo, de salto bem alto e fino. Um carro arrancou de novo na rua. Fechou o armário e foi até a janela, mas desistiu de abri-la. Tinha mais uma hora para dormir. Deitou na cama, puxou a colcha até o pescoço, pescou a imagem que queria da memória e desligou o abajur.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Vidas partidas


João Silvério tomou o último gole e levantou-se, derrubando a cadeira. Cambaleou até a porta do bar e, com o polegar direito erguido, avisou ao dono do estabelecimento que pagaria depois. Na calçada, viu Rosemeire, a Rose, sempre à espera de uma oportunidade. Os filhos dela, um menino com dois anos e uma menina com quatro, estavam sentados aos pés da mãe, que vestia calça jeans surrada, blusa de lã branco encardido e chinelos de dedo.

João emitiu um grunhido e Rose passou a caminhar ao lado dele. As crianças atrás, de pés descalços e mãos dadas. Caminharam até a chácara onde João trabalhava como caseiro. Ele não conseguiu encaixar a chave na fechadura. Rose ajudou. As crianças reclamaram de cansaço. Rose deu uma bofetada na menina e um beliscão no braço do menino.

Entraram e ficaram na sala. Rose e João com as calças abaixadas até os joelhos, ela jogada no sofá, ele por cima. As crianças sentadas no chão, em frente, reclamaram de fome. Rose jogou João para o lado, deu mais uma bofetada na filha e um beliscão no filho. Voltou para o sofá e colocou João por cima dela de novo – não estava tão bêbado. Ele riu quando gozou. Rose jogou-o novamente para o lado, disse que ele fedia como porco, subiu a calça e esticou a mão. Vai, vinte aí, olha essas crianças reclamando de fome. A menina disse que queria ir embora, o menino chorou. E antes de pegar os vinte reais e um maço de cigarros que viu sobre a mesa de centro, Rose deu mais uma bofetada e um beliscão.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Quinze horas


Meio da tarde. Ossos partindo. Músculos rasgando. Pele ardendo. O termômetro indicou: temperatura normal. Para quem? Um fio de cabelo escorregou pela blusa. Pousou como agulha na coxa esquerda. Uma lágrima saltou. Feito suicida na ponte.  Ela abriu a janela. Olhou para baixo. Um homem passeava com o cachorro. O meio da tarde era o horário mais perigoso do dia.