quarta-feira, 23 de julho de 2014

Pausas

Eles chegaram juntos ao restaurante. Ela, à frente dele, escolheu o banco estofado; ele ficou com a cadeira. Quer trocar, amor? Ele responde que não enquanto sorri e afasta uma mecha que cobre os olhos castanhos e maquiados dela. Já acomodados, um de frente para o outro, deram-se as mãos. A mão direita dela agarrou a mão esquerda dele e ela estremeceu. Eu percebi, ali ao lado deles, e ele também: rapidamente recolheu a mão e do dedo anelar tirou a aliança, que foi parar no bolso do paletó. Ele sorriu e ela voltou a esticar a mão, para logo em seguida escolherem, com dedos entrelaçados, um espaguete a bolonhesa para dois. 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Almoço de domingo


Ele não achou que ela fosse, não naquele dia, ele nunca achava que ela iria no dia em que ela falava agora eu vou, mas naquele dia, a água para o macarrão ainda fervendo, o tomate pelado para o molho na pia, ela foi. Ele ia abrir um vinho, ia elogiar o sabor do molho e o ponto do massa, ficou al dente, querida, mas ela foi. Sem bater a porta. Sem gritar. Sem deixar o rímel escorrer pelas bochechas que sim, haviam crescido nos últimos anos, mas eram dela, eram dele, eram ela, eram ele. Eram eles. Ela não voltou. O vinho continua fechado.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Seis horas

Todas as histórias já foram escritas. E vividas. Assim, o que faz ela com uma caneta na mão a olhar para a página limpa de um caderno? Ela não é a primeira mulher a chegar aos cinquenta anos e se perguntar afinal, o quê? Não é a única dona-de-casa-frustrada-por-não-ser-médica-ou-advogada-ou-dentista-ou-enfermeira-ou-professora-ou-qualquer-outra-profissão. Há médicas frustradas também. E advogadas, dentistas, enfermeiras, professoras, enfim, mulheres. Mulheres que perderam seus amores para outras mulheres. Meninas que não cresceram. Mães que enterraram seus filhos. O jornal mostra que há guerras por aí, nesse mundo que ela não conhece, mas que seja assim, se for para conhecer a dor suprema. Um homem dorme, caga, mija e come na calçada em frente ao ponto de ônibus onde ela espera o filho voltar do trabalho todas as noites, a duas quadras de casa. Ele é um homem, mas ela é mãe. Não há nada que já não tenha sido vivido. E toda vida humana dá um livro. To-da. Ela não tem alternativa, a não ser fechar o caderno, deixar cair a caneta e fazer um café fresco para o marido que chegará às seis em ponto. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Des-per-ta-dor

Alguns nomes não combinam com a coisa que representam, como despertador. O derivado do verbo despertar deixa de fora a agressão a que somos submetidos ao acordar com esse aparelho, ainda que seja programado para tocar nossa música favorita. Onde estão as mãos da minha mãe acariciando os meus cabelos e cochichando no meu ouvido ainda sonolento que é hora de acordar e que o café já está pronto sobre a mesa posta? Onde está minha mãe que me ajudava a trocar de roupa debaixo do cobertor nas manhãs de inverno? Agora é esse ruído saído de um aparelho mais frio que a manhã, cuja desconfiança me faz acordar durante a madrugada para checar se ainda não chegou a hora mesmo de eu ser despertada. Às vezes programo a voz do Chico Buarque, mas então ela me acalenta em vez de me tirar rapidamente da cama, e fecho os olhos, e imagino, e sorrio, e me enrosco no travesseiro, e rolo para a direita, e rolo para a esquerda, e começo a sonhar de novo, e levanto atrasada. E o dia se enche de suspiros, na vã tentativa de dar conta de tantas tarefas. E tantas saudades. 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O pudim ou o manjar e o amor

Sabe qual é o problema? Lembra aquele dia? Mesa posta com a sobremesa para os convidados, meus convidados, frutas, pudim, manjar, pavê, sorvete, comemoração do quê mesmo? Lembra que havia muita gente e alguém lá te ofendeu, não sei o porquê, mas te ofendeu, lembra que eu fiquei brava, saí de perto, puxei você para junto de mim, o ambiente era meu, mas a pessoa veio e te ofendeu de novo, num tom de brincadeira, brincadeira sem graça, que não se faz sem respeito, e eu continuei brava e dei um soco no pudim, no pudim ou no manjar, não me lembro, só me lembro dos olhos arregalados ao redor da mesa e de um pedaço de pudim (ou de manjar, era mole e claro) escorrendo pelo nariz de uma mulher bem penteada. Lembra? Lembra que você me abraçou e me agradeceu por te amar? Então. Esse é o problema: você entendeu.