terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Criança feliz

Ela não se lembra da aula. Não era de música nem de nenhuma outra arte, disso ela tem certeza. Também não era recreação, pois todas as crianças, entre vinte e trinta, estavam sentadas olhando para a lousa. O que aprendem as crianças na escola, aos oito anos de idade?

O que ela lembra é de todos estarem sentados e a professora na frente da classe, em pé, com um cabelo loiro, comprido e escorrido que ela sonhava em ter quando tivesse a idade dela. Queria também aqueles peitos e a cintura fina. Devia ser tão bom ser mulher como se deve.

Também não era aula de matemática porque em quase todas as aulas de matemática ela fingia uma dor de cabeça de tirar lágrimas dos olhos e a professora a deixava ficar quieta na carteira, com a cabeça baixa, apoiada sobre os braços cruzados. Ela às vezes erguia um pouco a cabeça, só um pouco para não correr o risco da professora perceber, e olhava com um dos olhos para a lousa, quem sabe alguma daquelas regras começasse a fazer sentido; mas não. Nunca fizeram.

Então devia ser aula de português, tão natural para ela quanto beber água quando se tem sede. Ou de história e geografia, quem sabe ciências. A professora explicava alguma dessas coisas para as crianças quando ela levantou a mão:

Professora, posso cantar uma música?

A professora com o braço suspenso na frente da lousa, os olhos dos colegas voltados para ela, justo ela, que se avermelhava toda com olhares, ela em pé, caminhando para a frente da classe, sem qualquer explicação ou justificativa:

Criança feliz, feliz a cantar
Alegre a embalar
seu sonho infantil

Oh! meu bom Jesus,
que a todos conduz
Olhai as crianças
Do nosso Brasil

Crianças com alegria
Qual um bando de andorinhas
Viram Jesus que dizia
Vinde a mim as criancinhas

Hoje no céu um aceno
Os anjos dizem amém
Porque Jesus Nazareno
Foi criancinha também


Ela não cantou o refrão de novo. Apresentação única. A professora puxou os aplausos e agradeceu a música enquanto a menina que não aguentava os olhares sobre ela e tinha dúvidas sobre o significado de Jesus Cristo na sua vida voltava para a carteira para continuar a prestar atenção na aula. Ninguém perguntou nada sobre a cantoria, certamente desafinada e desajeitada, a menina era alta e tinha braços e pernas compridas e finas que nunca sabia onde enfiar; ela nunca deu uma explicação sobre esse ímpeto meio lúdico, meio nacionalista, meio religioso, ou só mesmo ímpeto sem qualificação, nem mesmo para a mulher em que se transformou.

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