terça-feira, 17 de novembro de 2015

Amém

Duas da tarde sob a ameaça de chuva. Passageira, como tudo que existe, mas chuva. Ela não entrou na igreja para se esconder da água. Nem para rezar. Mesmo porque, não sabia. Quer dizer, num momento de desespero conseguia soltar um Pai Nosso e uma Ave Maria, como aprendeu com a mãe, mas sabia que aquelas palavras, ditas por ela, um olho fechado e outro aberto, de nada valiam, ainda que tivesse um fio de esperança: se deus é Deus, Deuuusss mesmo, maiúsculo, então podia entender as dúvidas que surgiam no coração dela, inchado de dor, por exemplo, quando viu na porta da igreja um bebê mamando num peito frouxo, murcho e fedido de uma mãe que babava ao pedir um real. Real, deus, ops, Deus? Não era fácil, Deus havia de entender e compreender que ela queria apenas algumas horas no local mais silencioso que conseguiu imaginar para terminar de ler o romance que carregava na bolsa há duas semanas.  

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