terça-feira, 15 de novembro de 2016

Queima de estoque


Queimar minhas roupas, todas, uma por uma. Calças há vinte anos no meu armário, uma menina boba as usava, não gosto mais dela, delas: da menina e das calças. Blusas que não falam quem sou, só quem fui, sou essa descabelada de moletom convicta de que só perco. Se há roupas para pessoas como eu nesse mundo, ainda não as descobri. Nasci para o fundo do armário. Em que momento alguém me puxou de lá? Queimar minhas calcinhas e meus sutiãs sem esperança alguma. Minhas meias, finas ou grossas, longas ou curtas, eu com tantas dores nos pés que não saem do lugar. Sinto dores de quem fica. Casacos que não fecham. Sou capaz de odiar a magra que fui. Sou capaz de odiar quem se apaixonou pela minha magreza. Queimar meus pijamas com marcas de leite escorrido. Pijamas de fêmea, com abertura fácil para uma boca banguela e faminta e egoísta. Queimar meus sapatos, minhas malas inúteis. E cintos! Cintos! Bermudas, biquínis, saias, vestidos: queimá-los não me saciará. Rasgá-los antes, talvez. Picotá-los. Tesoura. Faca. Nada cortaria mais do que minhas mãos nesse momento. Queimá-las todas com sangue, unhas e cutículas. E quem sabe, com tudo vazio, começar de novo.



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