quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Desarmamento


Aqui estão: minhas armas. Não lutarei mais e por motivo algum. Não há nada mais que eu possa carregar: uma metralhadora, um revólver, uma faca, um soco inglês, uma caneta, um sorriso, uma pena. Que tudo fique como está: gramado sem pés que o pisem, pessoas dormindo sobre jornais nas ruas, contratos vitalícios com operadoras de telefonia e TV a cabo, meninas estupradas pelos pais e padrastos e tios, automóveis acima das pessoas, crianças roubadas nas ruas, celulares sem sinal, aposentadoria aos noventa anos, trânsito em julgado após doze anos, carros com preços de imóveis, imóveis com preços que nem sei pronunciar, bolsas com preços de carros, carros carros carros, o dedo do meio dos motoqueiros e dos motoristas, lanche feito de isopor com aroma de peito de peru defumado, o fim da filosofia e da sociologia, o caixa dois, três e quatro, o dinheiro do cafezinho e das joias,  árvores derrubadas, os juros, cachorros mortos a pauladas, minhas feridas abertas, todas, que deixarei expostas às moscas, debaixo do sol no meio de um dia de verão, na rua, no asfalto, no concreto, até que explodam e vazem minha tristeza fétida por uma avenida de trinta mil reais o metro quadrado, no mínimo. 








Um comentário:

  1. Confesso que também tenho vontade de me desarmar quando vejo em que pé está a humanidade.
    Bj e fk c Deus.
    Nana
    http://procurandoamigosvirtuais.blogspot.com

    ResponderExcluir