quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Nuvens


São nuvens opacas e densas que escondem o azul. Um bloco que ameaça, mas não desagua. Agora vai, penso, mas o agora não chega. Nuvens cada vez mais prenhas, mais cinzas, mais úmidas, mas que não se permitem. Olho e vejo meu ventre no espelho, nenhuma brecha para a fuga. Por onde sairão os nossos rebentos? Nenhum tempo mais para um aborto, precisamos parir esse líquido todo, mesmo que saia uma gosma verde e cheirando a bosta, mesmo que nos matem, mesmo que nos queimem, não há volta. Vai chover. Em algum momento vai chover e estarei na rua, descabelada e nua, com as pernas abertas, entregando ao mundo, aos berros, o que carrego em mim.






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