domingo, 10 de março de 2013

Eu acredito em gnomos


Para a senhora cujo nome esqueci...
 
Sempre achei que meus cabelos de neve não combinam com meus olhos e meus passos. Mas deixei-os assim mesmo. Nunca gostei de fingimentos.

Nasci no litoral do Brasil, pelas mãos de uma freira, mas ainda pequenina meus pais me levaram para a Alemanha em plena guerra. Escondia-me dos aviões quando estes abriam suas barrigas e soltavam filhotes capazes de matar os filhos de minha mãe, tias e vizinhas, mas ainda assim me apaixonei por eles.

De volta ao lugar em que tudo se plantando dá, não mais na praia, que havia se tornado um lugar proibido para os alemães, moldei o próprio objeto de minha paixão, peça por peça, sob o olhar de homens desconfiados. Segurava no manche como quem segura na mão do homem que ama e com ele conheci o Brasil por cima e por dentro. Ai, quantas paixões essa terra pode despertar num europeu. Era um cuco no meio de araras, papagaios, tucanos, sanhaços, tuiuiús e macucos. Até que um deles gritou “bem-te-vi”. Casei e tive quatro filhos. Não me lembro quantos netos tenho, hoje os pais educam as crianças com muita liberdade. O bem-te-vi foi embora. Encontrou um urubu fêmea filha de Exu-pagão. Achei melhor me proteger e fui estudar Radiestesia. Por isso não tiro esse pêndulo do pescoço. Mas o bem-te-vi será meu eterno companheiro.

Cada dia é uma aventura, como nas viagens que fazia com meus filhos para a Grécia. Pena que não consigo mais companhias para viagens. As amigas que caminham com a terceira perna não podem seguir comigo. Na verdade, não tenho paciência para elas. Depois do bem-te-vi conheci um terno-gravata-e-pasta. Os vôos eram mais seguros, mas não perdi mais o fôlego. Mas esse também já foi.  Ao menos me deixou sem preocupações. Como disse, cada dia é uma aventura e ainda vivo ansiosa pelo amanhã.

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