terça-feira, 26 de maio de 2015

Segredo

Na sala de espera, ele, barba recém-surgida no rosto com uma boca cheia de dentes tortos e amarelos e óculos sobre olhos desgovernados, soltava urros a cada dois ou três minutos que passei a contar no relógio. Não ficava sentado mais do que quatro. Levantava, urrava, escancarava a boca pálida e tentava correr com pernas que se entrelaçavam. A mãe ia atrás e o colocava de volta na cadeira. Mais urros e tentativas de fugas. Numa das vezes em que se levantou veio até mim, olhos ardentes, óculos tortuosos, boca aberta num sorriso e braços prontos para um abraço. Eu, em pé, do outro lado da sala, sorri de volta. Ergui os braços. A mãe se pôs entre nós: deve ter te achado bonita.


Ela não tinha como saber que não é pela beleza que atraio os loucos. Mas também não expliquei. 

* * * 

Nenhum comentário:

Postar um comentário