quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Apelação

Nove badaladas na Sé cinza, garoenta e fedida. Dois pombos roliços disputam o mesmo buraco no beirado do Palácio da Justiça. Um desembargador precisa de um café quente, forte e sem açúcar: uma pauta com duzentos e cinquenta julgamentos e uma noite mal dormida por causa da tosse da esposa. Um jornaleiro que deseja boa sorte a quem passa por ali não sabe que a sorte só estará de um lado. O desembargador que dormiu mal ainda não sabe se responsabilizará o médico que apertou demais o fórceps no parto da mulher cujo nome ele nem mesmo lembra. A mulher que tentou engravidar por cinco anos e saiu da maternidade com os braços vazios. A mulher que está no fundo da sala de julgamento, mas que ele não conhece. 


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