segunda-feira, 14 de abril de 2014

Sumiços de páscoa


O café passado com o dia ainda dormindo.  A atenção para que o leite fervido não esparramasse pelo fogão, o que ela, apesar da prática, nem sempre conseguia. Distraía-se pensando em quanto tempo o ônibus atrasaria e no sonho perdido de ser secretária, tão bonito cuidar da agenda de alguém; não, o Senhor Mendonça já tem compromisso nesse horário; ele não está, por favor, deixe recado; e se aprendesse a falar inglês, então... A luz fraca da cozinha e a respiração inocente da filha no quarto ao lado, mesmo com o pai sumido junto com o sonho do secretariado, faziam nascer no seu estômago a sensação de que tudo valia a pena, mas que também sumia tão logo ela chegava na loja e era obrigada a vestir uma tiara com orelhas de coelho vermelhas. Vender brinquedos para crianças mimadas por meio de pais esnobes até que lhe trazia alguma alegria, mesmo que efêmera. Mas as orelhas...e vermelhas? E lá se foi mais um leite derramado.

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